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Nesta entrevista, o especialista fala sobre os desafios que as empresas brasileiras deverão vencer para melhorar o nível de desenvolvimento de tecnologias próprias. Segundo ele, “no momento em que houver um esforço tecnológico interno maior nas empresas haverá um indicador sólido do comprometimento com a produção de novos conhecimentos e de inovação”.
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 Ruy Quadros
| Leia abaixo a entrevista concedida à Communications by Siemens
Communications by Siemens - Qual a característica da inovação brasileira?
Ruy Quadros – A maior parte da inovação feita no Brasil é baseada em pequenas adaptações ou de tecnologias importadas pelas empresas ou produtos “rolados” de outros mercados para cá. Se pensarmos em termos de trajetória, este é o caminho percorrido por muitos países, especialmente o Brasil, onde sempre fomos muito abertos a empresas estrangeiras. A engenharia industrial de produto começou a se dedicar à pesquisa e desenvolvimento em adaptação de produtos e processos às condições brasileiras. Mesmo na empresa nacional, que importa pacotes tecnológicos, a maior parte do conhecimento interno não foi gerado aqui. O investimento em P&D empresarial no país ocorre quase exclusivamente no desenvolvimento de produtos/processos, quase nada em pesquisa tecnológica, com pouquíssimas exceções. Essa é uma característica de alguns países como China, Índia, mas particularmente mais forte no Brasil, porque não há aqui uma tradição de as empresas estrangeiras buscarem no país conhecimento científico para fazer pesquisa tecnológica.
CsB – Qual é a real situação do Brasil em relação ao dispêndio em Pesquisa e Desenvolvimento?
RQ - O nível geral de P&D ainda é baixo se comparado ao de outros países desenvolvidos, mas próximo ao nível de países intermediários como Espanha, por exemplo. Enquanto nosso empenho em números de inovações lançadas, que são produtos que chegam ao mercado é parecido com o da Espanha, o nosso esforço em relação ao esforço inovador, ao P&D interno, é bem inferior. De acordo com um estudo que concluímos recentemente para o IPEA [Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada], parte dessas diferenças vem do fato de que os setores mais intensivos em tecnologia são setores estrangeiros. Além disso, alguns setores de empresas nacionais preferem importar pacotes tecnológicos, portanto o esforço que se faz aqui é muito mais voltado para o desenvolvimento.
CbS – Quais são os fatores que influenciam negativamente no pouco investimento em pesquisa?
RQ – Tem a ver com nossa cultura, com o ambiente e com os mecanismos governamentais de compensação ao risco. De tudo um pouco. Nós tivemos um longo processo de industrialização em que nos acomodamos com a idéia de produzir para ocupar o enorme espaço de nosso mercado interno e a forma mais barata era importar e não desenvolver tecnologia própria. Isso só não ocorreu em algumas áreas excepcionais, como por exemplo a de petróleo (a Petrobrás é, inclusive, a campeã brasileira em P&D) e a aeronáutica, onde o Estado, por razões estratégicas, teve um cuidado muito em grande em investir em pesquisa.
No setor de papel e celulose, algumas empresas investem em tecnologia própria para aproveitamento de fibra curta, embora ainda estejam focadas na parte de commodities, que tem mais a ver com processos – uma característica ainda comum no Brasil.
CbS – Como as empresas podem vencer a barreira cultural?
RQ – Não há nas empresas clima, ambiente e profissionais para pesquisa. As pesquisas revelam claramente quão é baixo o número de doutores contratados pelas empresas. O percentual de mestres em doutores envolvidos com atividades de P&D nas empresas é 6,9% do total do pessoal em P&D, um percentual muito baixo e a meu ver é uma manifestação de nossa cultura. Quer um exemplo? Quando o governo lançou um programa de pós-doutorado empresarial poucas empresas tomaram conhecimento dessa iniciativa. Creio que se investigarmos sobre a maior parte das empresas que podem se beneficiar da MP 252 também vamos encontrar um número baixo, pois a maior parte não tem uma percepção clara sobre como utilizar os benefícios governamentais para estimular seu esforço em P&D.
A exemplo do que pouquíssimas empresas estão fazendo, o caminho ideal é buscar nas universidades mestrandos e doutorandos que desenvolvam suas teses voltadas para os seus negócios. A vantagem de se trazer jovens doutorandos para dentro das empresas é criar uma mentalidade de pesquisa interna.
CbS - Qual é a importância das empresas multinacionais na geração de inovação no Brasil?
RQ – Elas têm um papel muito importante pelo volume do investimento, qualidade e gasto médio em P&D por empresa. Se observarmos o dispêndio de P&D em 2000, podemos perceber que o gasto médio das multinacionais era o dobro das nacionais, para os mesmos grupos de tamanho. No grupo das grandes empresas, as multinacionais têm um papel destacado na realização da P&D interna, que tende a ser mais significativo que seu peso econômico
CbS - Por que não houve melhora entre as duas pesquisas PINTECs de 2000 e 2003?
RQ - Se olharmos a floresta nós não mudamos muito em relação a 2000: continuamos com uma P&D baixa, muito voltada para o desenvolvimento e não para pesquisa. Entretanto ao olharmos para as árvores notamos pontos interessantes. Um dado importante da nova PINTEC é a distribuição setorial da massa de P&D em 2003:R$ 5 bilhões, que corresponde a aproximadamente 0,6 % da receita total das empresas do setor industrial.
O estudo mostra que entre o período da Pintec 2000 e a de 2003 houve um decréscimo na intensidade tecnológica de quase todos os setores da indústria , com exceção para três setores: o automotivo, que praticamente dobrou a intensidade tecnológica de 0.8 para 1.6 (na receita); o aeronáutico (Embraer) e o de equipamento de informática. Em relação ao volume em P&D total (processos e produtos) em 2000, os setores mais expressivos, segundo estudo que fizemos com base nos dados das PINTECs, são o automotivo, aeronáutica, química, petróleo e máquinas e equipamentos.
CbS - O que inibe o esforço de P&D no Brasil?
RQ – São principalmente três fatores: estrutural, que se refere a uma estrutura industrial, onde nos setores de ponta estão as multinacionais que têm um peso muito grande. Por mais que invistam em desenvolvimento aqui, é pouco quando comparado com o que fazem nos países de origem; segundo, há o aspecto econômico. O Brasil ainda é um país de risco alto; antes tínhamos a inflação, hoje temos a taxa de juros. Se a alta taxa de juros praticada no Brasil já dificulta o investimento produtivo em equipamentos, que apresenta risco baixo, ela é ainda mais proibitiva no que se refere a investimentos em laboratório, pesquisa, formação de doutores, etc, cujos riscos são muito mais altos e exige investimentos de médio a longo prazos. Uma empresa nacional que não tem acesso a reforço de financiamentos baratos se vê claramente inibida a investir em P&D.
O terceiro fator é o cultural, o ethos da empresa industrial brasileira não foi forjado a fazer P&D e sim a montar fábrica e produzir. Há algumas exceções em que empresas como Petrobrás, Embraer, Oxiteno, entre outras nacionais, desde sua origem, mostram um percentual alto de P&D. A cultura não está relacionada à mentalidade de investimentos, mas de algo que está entranhado nas estruturas decisórias. Não dá para se pensar em um centro de excelência sem pensar em termos de estrutura e desenvolvimento tecnológico próprio.
CbS – Como se situam as empresas de Telecom?
RQ - Embora o mercado de telecomunicações de um modo geral esteja um pouco parado, do ponto de vista de investimentos, essas empresas, em sua maioria, têm um papel fundamental não só no desenvolvimento de software como também na exportação. Nos últimos anos as grandes empresas multinacionais de telecom, principalmente as de equipamento, como a Siemens, Motorola e Ericsson , deixaram de fazer apenas adaptações de produtos para atender ao mercado local e passaram a se integrar às redes globais de P&D de suas matrizes, passando a receber receitas por conta disso. Este é um dado auspicioso, porque estão investindo maior volume em desenvolvimento de software.
CbS – Como as políticas de governo podem impulsionar a inovação?
RQ – As empresas do setor de equipamentos de informática, material eletrônico e equipamentos de telecomunicações são influenciados a investir em P&D pela Lei de Informática. Nota-se que no caso das multinacionais que atuam nesses setores está havendo um enraizamento de suas atividades de P&D, influenciadas por essa Lei. Embora não tenha feito um estudo mais aprofundado da MP 252, acredito que ela seja um passo muito importante para impulsionar a inovação nas empresas brasileiras. Ela apresenta pontos muito positivos como os de estabelecer incentivos fiscais associados à P&D em um novo patamar, que são estímulos específicos para as empresas incorporem doutorandos e mestres. Também estabelece automatismo na utilização dos incentivos, isto é, as empresas poderão prestar contas dos gastos que abaterem do imposto de renda, a título de gastos em P&D, sem ter de submeter essas informações à aprovação prévia. Também permite que as empresas passem a informação ao mesmo tempo em que desenvolvem tais atividades. Esperamos que seja aprovada em breve. Desde que consigamos migrar para uma situação de maior estabilidade econômica, a Lei de Inovação, em conjunto com a MP 252, terá um papel muito importante para estimular a inovação no País. Também para as empresas estrangeiras esses novos mecanismos são também muito positivos O que ocorre é que ainda temos elementos de instabilidade muito negativos do ponto de vista de tomada de decisões, especialmente para as empresas nacionais.
CbS – Que interpretação o senhor faz da Lei de Inovação, ela é um instrumento que permitirá aumentar a taxa de inovação empresarial ou uma nova redação para velhas fórmulas?
RQ – Certamente, não. Ela introduz o mecanismo da Pesquisa de Interesse Público que permite ao governo encomendar pesquisas tecnológicas ao setor privado e ainda contém itens especialmente voltados para subvenção em P&D às pequenas e médias empresas. A Lei de Inovação dá muita ênfase ao setor público, obrigando alguns setores que fazem P&D, e que tenham núcleo de planejamento de inovação, a utilizar recursos governamentais para buscar patentes. Outro avanço contido nesta lei está no fato de definir regimes especiais a pesquisadores ou setor de pesquisa para serem licenciados a trabalharem na iniciativa privada ou fundar uma empresa própria.
CbS – Como deve ser o fluxo da relação entre universidade e empresa
RQ – A universidade gera um tipo de conhecimento que é uma pré-aplicação competitiva. Se as empresas quiserem importar menos tecnologia do centro de pesquisa da matriz (caso das multinacionais) ou licenciar de uma outra empresa (caso da empresa nacional) é preciso ter em seus quadros pessoas fazendo pesquisa tecnológica internamente. Esse é o grande desafio para as empresas melhorarem o nível de desenvolvimento de tecnologias próprias.
Cbs – Os instrumentos, como a Lei de Inovação e a MP 252, poderão levar o Brasil a melhorar seu desempenho inovador e chegar mais perto dos países desenvolvidos ou até mesmo dos “tigres asiáticos”?
RQ – Tenho convicção que sim, principalmente no setor privado. O Brasil não é totalmente atrasado no que diz respeito à condição de investimento em P&D, se pegarmos o gasto em P&D no País em relação ao PIB total, ele está em 1%, mesmo nível de um país como a Espanha. Esse percentual é alto para o tamanho de nossa renda per capita, do nosso grau de riqueza Só que o gasto em P&D no Brasil está mais concentrado no setor público. Na agricultura, por exemplo, o que se gastou em pesquisas nessa área foi fundamental para viabilizar as exportações dos produtos agrícolas. Outro exemplo é nosso setor de saúde, ainda que ruim no atendimento, possui forte capacidade de desenvolver e fabricar remédios, vacinas, identificação de endemias, áreas nas quais o Brasil tem tradição.
O que o País precisa para que a P&D empresarial cresça é uma perspectiva de crescimento a taxas de 5% a 6% ao ano durante dez anos seguidos, como na China. Contudo, sem crescimento e com crises recorrentes, se cria um ambiente complicado para a inovação no Brasil.
Foto: Scarpa/ Ascom -Unicamp |